Feeds:
Posts
Comentários

Retrato da Solidão

Aquela menina vivia seu mundinho muito particular. Como não tinhas irmãs, brincava sozinha com suas bonecas, porque meninos brincam na rua, mas meninas não podem jogar bola, empinar pipas ou subir em árvores. De vez em quando, o irmão a deixava jogar “fura pé”, muito mais para furar-lhe o pé do que propriamente para deixá-la jogar. Um dia tentou ensiná-la a jogar botão, mas ela não tinha muito jeito para isso.

Quando chovia, faziam barquinhos de papel para colocá-los na enxurrada, mas se o barquinho do irmão virava ou rasgava antes de seguir com a chuva, puxava-lhe o cabelo e ia embora cuidar de coisas de meninos.

Com as bonecas, conversava, cantava, dava aulas e ensinava a cozinhar folhas no fogãozinho de brinquedo.  Todo ano, pedia no Natal, porque acreditava em Papai Noel, uma bicicleta, mas meninas não devem cair. Ganhava outra boneca ou um carrinho para carregar a do ano anterior ou um conjuntinho de mesa ou de xicrinhas.

Um ano ganhou um pianinho. Cansou logo daquele som sem graça e desafinado. Queria tocar num piano de verdade. “Vai aprender acordeom. Piano é muito caro”.

Seus dedos logo cansaram daquilo. Pesava nas costas para carregar e nas pernas para tocar. Doíam os dedos o lápis da professora a lhes bater “a escala está errada”. O irmão logo aprendeu as primeiras notas e saiu a tocar.

A vida foi seguindo e as espinhas aparecendo. O cabelo fino e delicado virou uma massa disforme e embaraçada pelos hormônios e pelo óleo.

As noites eram muito compridas. Doíam as pernas, doía a cabeça. Os monstros nas paredes velhas e a certeza de que se dormisse, jamais acordaria.

Muitas vezes, a lembrança daquele incêndio da TV com pessoas presas em elevadores e voando pelas janelas.

O medo sempre, o maior companheiro. Medo da mãe. Medo da morte. Medo da morte da mãe. Medo do castigo do pecado.

Afinal, nas aulas de catecismo sempre ouvia que as meninas más tinham as almas cobertas de pintas pretas. Se sentia um verdadeiro petit-poá!!

A solidão, que ainda não tinha esse nome, fazia o peito doer.

Como é difícil a solidão de uma criança assustada!

Anúncios

Ela nasceu de uma semente que de tão grande era caroço. Caroço que depois de ter satisfeito paladares gulosos, foi lançado em algum cantinho do mato. Ficou lá escondidinho, crescendo, tomado corpo. Nasceram galhinhos e folhinhas que foram aos poucos tomando forma. Nunca achava água de graça, mas aprendeu logo cedo a ir buscá-la nas profundezas da terra. Se servia da sombra das palmeiras em volta para não ter seus galhos finos e ainda sem lenho, queimados pelo sol inclemente do verão. E assim foi crescendo. Em poucos anos deixou de ser arbusto e virou uma pequena árvore com galhos mais fortes e folhas de um verde brilhante. Custou muito, quase uma década para ser uma árvore grande, imponente e para fornecer uma sombra generosa. Nesse tempo, surgiram as primeiras flores que encheram sua copa de cor e de abelhas desejosas do seu néctar. Floriu em toda sua glória e esplendor. Depois das flores vieram os primeiros frutos, ainda pequenos mas já suculentos e macios. Passou décadas oferecendo sombra, abrigo e frutos aos animais e humanos que procuravam suas delícias. As dava sem queixa e de bom grado até que um dia, algo que não se planta mas que surge em pencas, se acercou dela. Uma praga, uma doença: a ignorância!

Suas folhas caiam lentamente quando amarelavam para dar lugar a brotos e folhas novas e incomodou aqueles que a acharam intrusa, ela que ali estava há tanto tempo. Sua beleza e vigor, seus frutos que caíam todos os anos, deliciando aqueles que passavam, perderam para a ignorância e a falta de amor e ela foi cruelmente envenenada. Em poucos dias as folhas verdes e brilhantes secaram e caíram. Seus galhos ficaram esturricados como se estivessem em chamas e à sua volta só havia tristeza e desolação. A ela só restou a serra elétrica.

Meus pêsames a todos aqueles que como eu, sentiram sua perda com uma dor no fundo da sua alma!

Uma Certa Maria

Aí que um dia nasce uma Maria que de tão pobre, era como quase todas as Marias.

Sua vida naquela cidadezinha perdida num canto qualquer, era como a de todas as Marias do lugar. Sem muito a fazer, deu de conhecer as plantas, as ervas, os cheiros. Não havia um matinho que não tivesse a sua serventia; dor de barriga, dor de cabeça, mal das moças.

Passava longe da escola. Sua cabeça embaralhava letras e números como uma sopa, batidos e misturados.

Aí que um dia, alguém leva essa certa Maria pra cidade grande, pra ser como as outras Marias daquela cidade.

Panelas e crianças. Roupa suja.  Cama dura.

Ainda meio criança, via as outras saírem pra escola, olhava de canto, com estranheza.

Sopinha na cabeça e no fogão.

Danças, festas e folguedos embalavam sua triste vida de Maria na cidade grande, como das outras Marias.

Alguns amores, pouca sorte.

De cozinha em cozinha chega ao seu destino.

Cuidar de um, cuidar de outro.

Criar uma filha, que não era uma Maria.

Peneira, fruta, verdura, estudo.

Luta diária. Vida difícil.

Filha na escola. Tarefas de casa. Quem ajuda?

Vô e Vó emprestados. Amores dos outros cedidos a bom grado.

Filha forte, guerreira, já que não era uma Maria.

Estuda a rodo e vai abrindo caminho, com a ajuda da barriga da mãe encostada no fogão.

Formatura da filha que não era Maria.

E Maria sente frio de tremer de medo. Entregar diploma e fazer bonito…quem há de negar?

O orgulho a saltar do peito. Coração pulando feito menino alegre e folgado.

Tudo que seu sonho permitiu sonhar a essa Maria que afinal, é de Jesus!

 

Será que o amor de fato existe? Será que ele nada mais é do que uma combinação de interesses? Quando você se apaixona por alguém, será que não se apaixona pela projeção daquilo que ele pode representar na sua vida num futuro próximo ou longínquo?  A manutenção desse amor envolve o interesse material, sexual, emocional ou biológico. Se aquela pessoa te trás segurança emocional, financeira, social ou até mesmo sexual, provavelmente o relacionamento se mantém por algum ou por muito tempo.

O amor da mãe por seus filhos, também não seria movido por interesse?

– A quem eu vou dedicar toda a minha atenção? Quem vai encher meus dias de alegria? Quem vai me fazer companhia na vida adulta e cuidar de mim na velhice?

Nossos genes nos manipulam para que façamos exatamente aquilo que a natureza precisa. Por que ninguém se apaixona à primeira vista por alguém feio, fraco ou esquisito? Por que os genes não permitem. Eles precisam da certeza de que você encontrará alguém bonito, forte e resistente, para perpetuá-los.

Será que a amizade também pode ser incluída nesse balaio? Não sei. Será que ela não é movida pelo interesse no convívio, no bem que isso causa ao cérebro? As gargalhadas são mais benéficas que os ansiolíticos, aliás, estou precisando dar boas gargalhadas, alguém se habilita? (olha aí o interesse!).

Acho que essa história de amor é só um conto de fadas que nos contaram e em que nós acreditamos ou então esse papo é só conversa fiada de uma mulher sem muito saco pra mimimi!!!

Alma de Vidro

A alma da gente é como um armário onde guardamos nossos vidros. Nas primeiras prateleiras, aquelas mais fáceis de serem acessadas, estão os copos e vasos mais baratos e sem tanta importância. Guardamos até alguns copos de requeijão entre eles. Quando quebram, varremos os cacos e jogamos no lixo sem lamentar. Se for necessário até colamos alguns.
Nas prateleiras medianas guardamos alguns vidros que nos servem bem, custam um pouco mais caro e quando quebram, lamentamos e nos aborrecemos por terem sido manuseados sem cuidado.

Já nas prateleiras mais protegidas, guardamos nossos mais delicados cristais e porcelanas. Esses só são usados em momentos especiais e apenas pessoas especiais lhes tem acesso. Por isso mesmo, devem ser manuseados com carinho e cuidado. Não podem ser colados e sua perda é irreparável. São de uma delicadeza ímpar e quando quebram causam dor, mágoa e um sentimento de perda.
De uma forma ou de outra, dos mais ordinários aos mais especiais, sua quebra deixa sempre uma marca indelével.

Para Caetano

 

Pra que tanta pressa menino?

Tenha calma que a vida te alcança

Corra, pule, brinque, mas vá com calma

Espere pra entrar na dança

Beije, ame, grite…

Mas espere chegar o amanhã

Viva com esperança

Mas espere pra deixar de ser criança.

Pra que tanta pressa menino?

 

 

Ele era um rapaz que vivia como viviam os rapazes da sua época. Não se preocupava com estudos e nem religiões, que eram coisas maçantes e enjoadas.

Morava numa localidade aprazível, perto do mar e da zona das mulheres, que frequentava com certa regularidade.

Era bonito, bem falante e muito, muito sedutor.

Um dia, conheceu uma mocinha. Linda e bobinha como eram as moças da sua época. Filha de um português zangado que não permitia namoricos nem saliências.

Casaram-se e logo tratou de encher a casa de filhos. Um a cada ano. A mocinha, que de bobinha nada tinha, o prendia com mimos, afagos, beijinhos e noites insones, onde deixava o recato de lado. Ele se deixava prender, até ser seduzido pela rua.

Um outro dia, conheceu uma outra mocinha. Não sei se era bonita nem bobinha porque dela só sei que era a rapariga, como se chamavam as amantes naquele tempo. Também tratou de encher-lhe a casa de filhos, que é como se amansavam as mulheres naquela época.

Passou a se dividir entre as duas mocinhas que já não eram tão moças assim. A primeira soube da segunda por fofoqueiras, invejosas de tanto amor e felicidade. Brigou, chorou, bateu pé, mas nunca o expulsou. O amor e a necessidade a prendiam.

Ele, quando estava com uma ou outra era amores, atenções e noites insones.

Elas, quando o tinham para si, eram amores, atenções e noites insones.

Vez ou outra, ele saía um pouco das atenções e amores caseiros e os buscava em outros braços, como era comum naquela época, e outros filhos apareciam para trazer mais graça a vida.

Os filhos o faziam feliz e realizado como era costume nos homens daquela época.

E o tempo foi passando e levando os filhos de casa, o viço, a saúde, a mocidade e a vontade de se dividir.

Ele foi se deixando ficar com a segunda mocinha, sobrando à primeira a desolação, a tristeza e o ciúme.

Quando ocasionalmente aparecia, era para ela, como se o sol se abrisse num dia de tempestade.

A velhice inexorável os apanhou e os uniu. Se reuniam e timidamente saiam os três para longos passeios e sorvetes de pitanga. A conversa nem sempre fluía fácil, mas almas irmãs não precisam de palavras.

A morte os alcançou um a um e quase ao mesmo tempo. Primeiro a segunda mocinha, que deu um longo suspiro e despediu-se da vida. Depois a primeira mocinha que não suportou a dor de vê-la partir e por fim, o rapaz que as seguiu na intenção de jamais abandoná-las!!!

Magaly Moreira