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Quando nos mudamos pra esse apartamento onde moramos hoje, quase não víamos o asfalto escondido pela copa das árvores. Hoje, passados 10 anos, restam apenas algumas raquíticas sobreviventes. Todas as outras foram sendo cortadas pela Prefeitura e pela Coelba. A semana passada, cortaram a última em frente ao nosso prédio. Por que não dão manutenção as árvores das ruas?  Como se pode falar em vida melhor sem cuidarmos do nosso bem maior que é a nossa cidade?

Salvador está suja, feia e mal tratada.

Sei que essa afirmação desagrada a muitos e por conta das críticas que faço à cidade, muitas pessoas me questionam inclusive se sou baiana. Não posso deixar de desaprovar o que vejo por aí.

A cada chuva, a cidade se transforma em um solo lunar ,tantas são as crateras e nós motoristas temos que fazer malabarismos para desviar deles e para não molhar nenhum passante, coisa que nem sempre é possível. Os pedestres precisam pular para evitá-los, correndo riscos e passando apuros.

Com a temporada das chuvas começando, em breve estaremos lamentando a perda de vidas e bens materiais por quem tem tão pouco.

Não posso conceber que uma cidade como essa esteja querendo sediar a abertura da Copa do Mundo. Pra que?  Talvez isso traga votos, mas em nada vai melhorar a vida da população tão sofrida. Seria melhor que os políticos tomassem vergonha e cuidassem melhor de sua gente e de sua cidade.

Quanto às árvores, salvem-nas, por favor!  Não esperem que fiquem velhas e podres e tenham que ser cortadas!

Engraçado, hoje guardando as roupas que foram passadas pela diarista, me senti muito esquisita. Pensei em minha mãe e em quantas vezes a vi fazendo isso. Pensei em como ela está hoje, sem nenhum tipo de atividade laboral, física ou intelectual. E que ela, que trabalhou tanto,  hoje não tem nenhuma função ou importância na sociedade. Me imaginei daqui a vinte ou trinta anos, talvez com a mesma falta de perspectiva a não ser um final melancólico. Mesmo hoje, que função eu ainda desempenho na sociedade? Por mais que procure me manter ativa, física e intelectualmente e procure realizar algum trabalho, às vezes me sinto tão inútil!

Esses pensamentos têm me assombrado desde que me aposentei da Escola. Se senti um alívio profundo por não precisar mais enfrentar salas de aula com alunos cada vez mais desajustados, desmotivados e violentos, por outro me senti meio órfã. Afinal foram 25 anos trabalhando e bem ou mal gostava do que fazia.

O artesanato preencheu um pouco do vazio deixado pelo trabalho regular, mas tem se mostrado uma atividade estéril, onde você trabalha e não tem o devido retorno financeiro. As aulas são sazonais e as pessoas preferem gastar dinheiro com outras coisas.

Sei lá o que me deu. Acho que estou com TPM. Tensão Pós Menopausa!

Com o Tempo se Aprende

Texto de William Shakespeare muito bom para reflexões, principalmente para quem já está a algum tempo na estrada! 

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve Se comparar com os outros, mas com o melhor que você pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde chegou, mas onde está indo; mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!

Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar.”

 William Shakespeare

Dolores Sierra

Hoje eu acordei com uma antiga música de Nélson Gonçalves na cabeça. Meu pai a cantava de vez em quando e eu aprendi a cantá-la desde muito novinha. Fala sobre uma mulher que saiu de sua cidade e foi se prostituir em Barcelona: “Dolores Sierra vive em Barcelona, na beira do cais. Não tem castanholas e faz companhia a quem lhe der mais….”

Não sei o que me levou a lembrar dessa antiga canção. Talvez por ter lido nas últimas horas, notícias de mulheres que sofrem injúria por parte de homens, seus ou não, como a ex-escrivã de São Paulo que foi despida em uma delegacia por policiais que queriam configurar um flagrante de corrupção.

Também li as declarações dos líderes islâmicos sobre as mulheres na Revista Veja.

Se a situação da mulher no Ocidente difere enormemente para o Oriente médio, ainda vamos ter que brigar muito para ocupar um lugar na sociedade onde o simples fato de ser mulher já nos coloca numa situação inferiorizada.

Quem nunca teve que brigar por seus direitos?

Acho que talvez tenha apenas sonhado com meu pai cantando essa música. Mas por que especialmente essa se ele cantava tantas?

O homem, de uma forma ou de outra, tem uma necessidade histórica de subjugar a mulher, seja ela filha, companheira, mãe, irmã ou apenas colega de trabalho. De forma clara ou subliminar.

O que levou esses policiais a achar que poderiam despir uma mulher para encontrar dinheiro de suborno? Notoriedade? Eles acharam tão interessante o que estavam fazendo que filmaram a cena toda. O Ministério Público entendeu que “houve apenas rigor no efetivo exercício do poder da polícia ante as circunstâncias do fato”. O governo de São Paulo só se manifestou depois que o vídeo veio a público e exonerou a Corregedora da Polícia, que apesar se ser mulher, minimizou os fatos.

Quanto à situação da mulher no Oriente Médio vai piorar muito agora. Alguém viu alguma mulher na rua nos protestos na Líbia?

A expolração milenar das mulheres passa, inexoravelmente,  pela libido masculina e por sua força física, pela pobreza e miséria, levando meninas a se prostituir ainda muito cedo com a conivência das famílias. Além disso, há a necessidade de buscar um lugar ao sol.

A história de Dolores Sierra é a história de milhões de mulheres mundo afora que tem que vender seu corpo para seu sustento, mas pode ser também a história de todas nós, quando fazemos conceções aos nossos homens. Pode ser também a história daquela mulher, que por 200 reais, teve seu corpo exposto de maneira sórdida, por policiais truculentos em busca de notoriedade. Pode ser a história de todas as muçulmanas subjugadas às Teocracias islâmicas. Pode ser a história das meninas anoréxicas que vendem seu corpo a indústria da moda.

Dedico a nós, mulheres, esse desabafo e essa música, no nosso mês.

“Dolores Sierra
Vive em Barcelona
Na beira do cais

Não tem castanholas
E faz companhia
A quem lhe der mais

Nasceu em Salamanca
Seu pai lavrador
Veio a maioridade

Pois quem nasce na roça
Tem sempre a ilusão
De viver na cidade

Sua mãe chorou
No dia em que ela partiu
Pra conhecer Dom Pedrito
Que prometeu e não cumpriu

Com frio e com sede
Só na sarjeta
Sorriu para um homem
E ganhou a primeira “peseta”.

O navio apitou, paguei a despesa
A história se encerra
Adeus Barcelona, adeus
Adeus Dolores Sierra”

 Magaly,01/03/11

http://www.istoe.com.br/reportagens/126061_BARBARIE+NA+DELEGACIA)

http://www.vagalume.com.br/nelson-goncalves/dolores-sierra.html

http://veja.abril.com.br/revistas

Quando eu tinha entre sete e oito anos, li uma história que me chamou atenção e no final vou explicar porque.

(Livre adptação do conto de Hans Christian Andersen)

Era uma vez um príncipe que desejava casar com uma princesa de verdade, mas ele estava tendo dificuldade em encontrá-la. Numa noite de muita tempestade, bateu à porta do castelo uma moça, dizendo-se uma verdadeira princesa. Porém, devido  a chuva, ela estava em péssimas condições, toda molhada e com água escorrendo pelos cabelos. Para testar se a moça falava a verdade, a rainha a convidou para dormir no castelo. Antes porém, colocou ervilhas na cama em que a moça iria dormir e, por cima, vários colchões e cobertas.

No dia seguinte, ao perguntar à moça como ela tinha passado a noite, recebeu como resposta que a noite tinha sido péssima, porque alguma coisa a havia machucado. Com esta resposta, a jovem comprovou ser um verdadeira princesa, pois somente uma verdadeira princesa poderia ter a pele tão sensível, e casou com o príncipe.

Dizem que as ervilhas foram para um museu e estão lá até hoje.

Por que essa história boba e sem graça me chamou tanto a atenção a ponto de lembrar-me dela até hoje?

Sempre me achei meio deslocada na minha família e na vida. Não me sentia fazendo parte daquele núcleo. Quando eu era criança, não tinha essas coisas de tomar cuidado com o que se dizia para os filhos e nem com que se falava na frente deles. Meu pai gostava de brincar dizendo que eu havia sido achada na lata do lixo e que fui encontrada porque chorava igual a um LP (alguém sabe o que é isso?) arranhado. Claro que eu acreditava, não é?  

Aliado a isso, sempre tive uma coisa esquisita na pele. Me coçava demais. As roupas pinicavam, aliás, pinicam até hoje, tudo me causava um incômodo anormal. Me lembro de muito pequena, escondida “quebrando” a goma do uniforme escolar, que naquela época se usava engomado, insuportável. Não agüentava nem mesmo que me penteassem os cabelos sem sentir dor. Ficava marcada e roxa com qualquer bobagem, enfim, um porre.

Aí, um belo dia, leio a história da Princesa das Ervilhas: foi só juntar um mais um e pimba, sou uma princesa abandonada em alguma lata de lixo!

Pois é, até hoje me considero a Princesa das Ervilhas, afinal ninguém pode ser tão sensível sem ter sangue azul! . Favor fazer reverência ao me encontrar.

Pais e mães, cuidado com o que dizem às suas crianças!

Magaly

Fev.20011

Medo de Avião

De repente foi como me ver no espelho.  Aquela mulher de olhos fechados, de rosto pálido e balbuciando uma oração, era eu.

Aquele medo era tão conhecido, que eu quase sabia qual sua oração, o quanto lhe batia o coração descompassado, o frio das mãos de dedos entrecruzados.  

O desamparo era imenso. Quem ou o que a obrigava a passar por aquilo?

Depois de embarcar, a perdi de vista preocupada com meu próprio medo, orações e dedos frios.

O avião sempre foi antagônico na minha cabeça, se é o símbolo da liberdade, da oportunidade de ver coisas e lugares novos, também representa o lugar fechado, onde sempre me senti insegura, impotente e absolutamente apavorada.

O medo é mesmo algo irracional.

Quando esperava minha bagagem, saboreando o alívio de ter os pés no chão de novo, a vi lépida e fagueira. Seu rosto espelhava o meu alívio. Caminhava como se estivesse sobre nuvens. O sorriso com as cores da alegria e as mãos livres, quase acenando para os desconhecidos.  Sabíamos, eu e ela, que o alívio tinha prazo de validade, afinal seria preciso encarar a volta. Será que aquela pequena sombra que vi ligeiramente em seu rosto, significava o mesmo aperto discreto no estômago que eu senti naquela hora?

O medo é mesmo algo irracional.

Será?

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